quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Uso da Luz Inconscientemente (Francisco Ferraz de Macedo)

I
   Apeára
mãi formosa,
de um carrinho
de setim,
um menino
de um rosado
n'uma alvura
de jasmim.

   Já mil vezes
tinha a terra
feito giro
sobre si,
depois della
dar a vida
ao menino
que alli vi.

   Tenteando,
pelo solo
vacillantes
passos dá,
e circula
todo o pouso
onde a alegre
mãi está.

   Ora folhas,
ora flores
a cuidoso
recolher,
ou areias,
ou pedrinhas
a contente
revolver.

   Se um insecto
delicado
lhe apparece
que o attrai,
do seu peito
estridente
alarido
logo sai.

   Desta forma,
e entre quedas
apoiadas
pelas mãos,
horas leva,
passa o tempo
em sublimes
sonhos vãos.

   Em costuras
entretida
a mãi sua
se ficou;
quando um caso
só com elle
mais commigo
se passou.

II
   A muito pouca distancia
da que o menino brincava,
com viva e tenaz constancia
seus folguedos eu sondava.

   Até que o bello innocente
em mim repara, e insiste;
por mais disfarces que invente
não obstante elle persiste.

   Eu tinha o cigarro aceso,
mas acendi-o de novo;
e notei que inda mais preso
me olhava o doce renovo.

   Torno a acender o cigarro
que apagado adrede havia;
mas do organizado barro
mais a vista se attrahia!

   Sem nunca o deixar do alcance,
porém de um modo indirecto,
procurava a todo o trance
a causa do seu affecto.

   Mas durante esta pesquisa,
cujo fim nem eu previa,
sem que ouvisse a propria brisa
em silencio me inquiria:

III
   O'meiga
creança
formosa,
mimosa
qual rosa
de fresco
jardim,
   que impulso
te leva
por tudo
sisudo
e mudo
a olhares
p'ra mim?

   Que causas
teus olhos
galantes,
brilhantes
constantes
te fazem
luzir?
   Ser pòde
meus vidros
das lentes
nitentes
que intentes
co'a vista
partir?

   Das roupas
as côres,
por vivas
activas,
avivas
na tua
visão? 
   Ou feio
semblante,
que em rosto
desgosto
tem posto,
me visas
então?

   Ou casos
comtigo
abordas,
acordas,
recordas
que bellos
passei?
   Se é certo
que um dia
nos vimos,
ouvimos,
sentimos
aonde
não sei!

   Nem posso
lembrar-me
se estreito,
subjeito
ao peito
andaste
que é meu;
   se a vida
que se ia,
n'um lento
momento,
no alento
teu collo
me deu.

   Se cuidas
que, em muda
linguagem
e imagem,
coragem
p'ra luta
me dês,
   eu vendo
que enceta
caminho
de espinho
filhinho
que adoro...
talvez!

   Portanto,
só vejo
desvelo,
meu bello
singelo
menino,
demais;
   sem traço
de indicio,
por leve,
por breve,
que leve
da causa
signaes.

   Mas docil
creança
formosa,
mimosa
qual rosa
de fresco
jardim,
   que força
te leva
por tudo
sisudo
e mudo
a olhares
p'ra mim?!

IV
   Por melhor disfarçar o meu intento,
      voltei o rosto
      em lado oposto
áquelle em que o menino estava attento.

   Tiro papel e lápis da carteira,
      faço que escrevo
      e finjo enlevo
como delle por mim de egual maneira.

   Quando era decorrido nesta scena
      um breve espaço,
      com lento passo
vem a creança para mim serena.

   Traz a vista cravada em minha face,
      d'onde a não tira
      sem que elle aufira
do seu fim o primeiro desenlace.

   E vem, vem vindo humilde, meigo, brando,
      como em caminho
      docil cãozinho
vem, se lhe ralham por estar ladrando.

   Acercado do banco onde eu persisto,
      fixo repara
      na minha cara,
sempre julgando que o não tenho visto.

   Depois retira os olhos ramalhudos
      da face minha
      aonde os tinha
e toma ares mais graves, mais sisudos.

   Os braços de marfim de roseos dedos,
      tenros, pulposos,
      quanto mimosos,
levanta entre receios, entre medos.

   Emfim com os dedos dez de que dispunha,
      e mais puzera
      se mais houvera,
minha caixa de phosphoros empunha.

   Passa-lhe um leve exame, e retrocede
      sem discrepancia
      n'uma distancia
que egual caminho ao que elle trouxe mede.

   Se minutos se deteve occupado
      no que reclame
      o seu exame,
em pouco tempo o deu por terminado.

   E a caixa abrindo, de seu centro tira
      um promto lume
      com que presume
repetir o phenomeno que vira.

   Eram de sodio os lumes, força immensa,
      e produziam
      quando exploziam,
além de chamma enorme, luz intensa.

   Passa no plano lateral da caixa
      um fulminante,
      que n'um instante
se inflammou, produzindo ardente facha.

   Ajuntou-se à explosão um - ai -, que attento
      ser mais de espanto
      do que de encanto,
que o rosto lhe não vi nesse momento.

   Mas fui co'a pressa que um perigo clama,
      logo que em frente
      ao innocente
a roupa e dedos vi lamber a chamma.

   E correu tudo n'um tão curto praso,
      e tal violencia
      mas tal prudencia
que nem a propria mãi deu fé do caso.

   As amostras de dôr que aos lábios vinham,
      signaes contendo
      della crescendo,
dentre em pouco sumido já se tinham.

   E apoz co'a mãi, nas saias encoberto
      por entre os folhos,
      de obliquos olhos
olhava-me de longe, não de perto.

   Eu depois, cá só commigo,
ou cá com os meus botões,
como de mim bom amigo
fiz ao acaso reflexões,
que se aqui todas não digo
é por violentas razões;
mas dar uma amostra quero,
visto que em nada exagero:

V
   A chamma com seu brilho ao pobre inconsciente
o cerebro abalou, feriu profundamente;
phenomeno imprevisto e de ignorada acção,
a força lhe prendeu da debil attenção.
Sem do p'rigo medir as tristes consequencias,
atirou-se, imprudente, ao mar de experiencias,
+ensando de o desejo em que era de operar
com seu saber e engenho ao fim de poder levar.
Sem estudo do objecto haver nem leve ideia,
pois que inda ha curta a vida e a mente lhe escasseia,
pretendeu o innocente o goso de uma luz
sem prever o perigo ao qual ella conduz,
nem medir do seu brilho a força presumivel,
co'a força do apparelho a que será sensivel.
Assim, o nosso heroe de um instrumento usou
que o podia matar se alli eu não estou,
a até, por illações em que me não afundo,
de dôr matar seus pais, incendiar o mundo.

   Typos de irreflexão, como o innocente dá,
nos homens e nações, oh quantos typos ha!

   Celibatarios sendo, ao usar da luz da vida
com imprudencia tal que a tornam insoffrida;
se juntos á mulher, dos lares no esplendor,
usam da luz do abuso e queimam nella o amor;
se pais de prole extensa, além de ruins caudilhos,
co'a luz do exemplo máo a fulminar os filhos;
se provectos na edade, o uso da luz senil,
vivaz no entorpecente, allumiando o ardil;
quando illustrados são, acendem o systema
com que cegam o mundo. impondo-o como emblema;
se de instrucção tem falta, a luz da estupidez
inflammam fulgurante em prol da insensatez!
.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .

   Dos povos ou nações, a que é maior de todas
de outras co'a luz do incendio é quando faz as bodas;
a que tem força media, inflamma os ouropeis,
fazendo á tibia luz bifronticos papeis;
se humilde, aberra a luz, e vive assim bisonha
sem leis, sem pão, sem grei, sem brio e sem vergonha!
.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .

Dr. Francisco Ferraz de Macedo in Dois Dias de Ociosidade
- de acordo com a ortografia de 1888

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