terça-feira, 25 de agosto de 2009

Domingo ao acordar

I
Manhã raiada de Sol.
Pela janela entram
os primeiros raios do astro-rei.
O murmúrio da cidade a esta hora
enche-me de melancolia.
Sinto-me mais só,
sem ninguém ao meu lado.
O Sol é triste,
e mal se mostra, escondido
pelos cortinados opacos da sala.
Correr os cortinados seria descobrir o Sol;
vê-lo sorrir como da última vez.
A última vez foi na terra.
Que saudades que eu tenho...
Da terra?...
Talvez da vida...

Corro os cortinados?
Não corro?
Não corro!


II
Na terra, ao acordar,
podia, com uma alegria despreocupada
deixar-me gastar o meu tempo
como areia a correr pelos dedos
e deixar-me estar deitado,
alojando-me aconchegado pelas cobertas
entre lençóis brancos.
O tempo que vivi foi mal vivido!
Podia ver o Sol nascer
e os seus raios reluzirem
no orvalho matinal,
nas folhas das árvores e na erva verde.
Não perder um único momento
que se extinguiu e não se repete.
Eu queria perder-me
completa e infinitamente,
esperar todos os dias ver o Sol nascer
e agarrar todos os segundos com as minhas mãos.


III
Revejo agora no leite
as minhas preocupações de Agosto.
A minha tristeza foi abafada dentro de mim
pelo estrondo ruidoso dos foguetes de festa.
Caí dentro de mim ao som daquele caos
- visão semelhante à do fim do mundo
na alegria perdida daquela gente.
Quanto de mim se perdeu
a olhar o fim de uma vida inteira
em explosões no ar
que a todos aturdiam?
Aplausos, risos e gargalhadas;
Gritos, estrondos, música, euforia...
Parecia quase a explodir
na placidez exterior do meu sorriso de boca fechada.

Cada minuto, um tiro nos meus olhos.
- A noite do meu fuzilamento!
Depois disto,
quem sabia?...
Não quis dormir essa noite,
antes morrê-la numa festa.
A festa da minha morte...
O meu velório!


IV
A cidade não ruge como rugia
no outro dia,
Ontem à meia-noite quando me deitei.
Parece dormir, mas não dorme
(nunca dorme).
A cidade está calma
(parece calma).
Não me apetece ver o Sol,
porque ao olhar pela janela
lembra-me os dias que passava na praia.
Ao menos nublasse o céu!

Dormir é, ainda assim,
poder ficar descansado.
E não pensar é
uma benção que invejo.


V
Perdido num jogral de flores silvestres
percorro a manhã.
O Sol caído sobre as casas empilhadas
ao fundo.
Quero ver de longe
isto que está perto.
Percorro os campos de erva verde.
Sou uma criança descalça
a correr no topo de um outeiro.
Levo uma azeda na boca
e a lancheira na mão
como se fosse mesmo um miúdo do campo.
Sou agora, à superfície,
um campo verde
banhado pelo Sol
até ao fim da tarde.
Sou a geada que cai fria à noite,
e o vento que vai sobre o verde,
o orvalho da manhã,
as cores do arco-íris,
e sou o próprio Sol
da paisagem da minha aldeia.

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